Persona

Persona
"Fiz de mim o que não soube E o que podia fazer de mim não o fiz. / O dominó que vesti era errado. / Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me. / Quando quis tirar a máscara, Estava pegada à cara. / Quando a tirei e me vi ao espelho, Já tinha envelhecido. / Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado. / Deitei fora a máscara e dormi no vestiário / Como um cão tolerado pela gerência Por ser inofensivo / E vou escrever esta história para provar que sou sublime." [Fernando Pessoa]

domingo, 6 de março de 2011

O ninguém que queremos ser.


Aprendemos a ser insatisfeitos. Como tudo nessa vida, há um ponto positivo nisso. Mas não é esse lado da discussão que pretendo argumentar.

Quando éramos crianças queríamos ser grande, grandiosos. Quando estamos crescidos percebemos o quanto era bom quando éramos crianças. Almejamos entrar na Universidade e quando a adentramos já começamos a maquinar como será ao sair dela. O embate do quotidiano nos espera e será necessário ser um bom navegador para não ficar à deriva...

Nos dias atuais o fetiche do concurso público nos atormenta. A indecisão e a expectativa tantas vezes frustrada nos embala freneticamente em busca de uma suposta “melhora” na condição socioeconômica e, conseqüentemente, no mercado afetivo. Mas este, principalmente, é um tema tabu, não se pode comentar... e quando hipoteticamente argumentado é imediatamente refutado. Bem à brasileira...

Acontece que nos formamos, passamos em um concurso público e descobrimos que existe outro cargo melhor numa outra instituição e lá vamos nós novamente embalados pela busca de um labor menos entediante e mais rentável. Pois é, somos exigentes.

Os bens materiais, e quiçá os afetivos, outrora adquiridos não mais nos serve. Nada presta. Precisamos trocar tudo. Renovar, rápido. O impacto midiático com sua máquina discursiva nos embebeda de ilusões desejáveis e somos extasiados pela gana muitas vezes contestada. Tornamos-nos traumáticos.

Estamos nos dissolvendo, para usar uma metáfora baumaniana... Desejamos ser outra coisa, sempre. Somos, ou maioria das pessoas são, constantemente inconstante. Mas por quê?

Salvador, 7 de Março de 2011

Alan Passos.

5 comentários:

  1. Concordo, mas o ser humano sempre será inquieto, acho que é até sem explicação, eh nessa busca constante por algo melhor que o ser humano evoluiu, claro que hoje temos muitas futilidades em nosso meio e várias pessoas tem o suficiente e nem por isso é contente em sua vida,mas, isso pode ser bom e ruim a depender de cada um e nós sempre vamos buscar sempre esse algo a mais, é nossa essência.

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  2. "Somos, ou maioria das pessoas são, constantemente inconstante. Mas por quê?"

    Talvez porque em cada fase a vida nos apresenta novas dúvidas, novas descobertas e isso faz com que as nossas escolhas e caminhos sofram o efeito "constantemente inconstante", como você diz.

    Quem é constante o tempo todo não muda, não cresce, não aprende, não evolui! E quem muda com frenquência não tem credibilidade em seus argumentos, não tem certeza de quem se tornou.
    Pelo que tenho visto e o pouco que tenho vivido me afirma que a inconstância incomoda muito mais nos outros do que em nós mesmos. Costumamos não reparar muito nas nossas próprias inconstâncias, as dos outros nos incomodam muito mais porque nos forçam a aprender lidar com uma nova realidade.

    Mas quem sou eu pra falar de ser ou não ser constante? Talvez a pessoa mais constante e inconstante do mundo sou eu, como humana que sou. Entendeu? rs

    Vanessa Malvar

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  3. Talvez a inconstancia não nos incomoda, num primeiro momento, porque não a percebemos de imediato, já que estamos vivendo a mudança. Porém o olhar estrangeiro capta isso rapidamente de uma forma, as vezes, analítica.
    Mas também não acredito que o ser humano seja essencialmente inconstante, acho que são as condições sociais que nos tornou inconstantes. Compreendes?
    Gostei da contribuição de vocês para o meu pensar.
    Bju grande.
    Alan Passos.

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  4. O ''ser constantemente inconstante'' muitas vezes é a própria mola propulsora em termos de relações sociais, econômicas etc.
    Muito bem citada essa ''necessidade'' de se estar em movimento, sem saber por que (qual motivo) e pra quê, bastando se ter a idéia de que ''a correria'' é que vai nos levar a algum lugar. Nesse contexto, entre outras coisas, estamos enlouquecidamente preocupados em desbancar o vizinho em concurso ou vestibular., voltados para o estudo das apostilas sagradas - as ''sacro-tábulas da aprovação'' hodierna - adquiridas na banca da esquina, com direito a incentivos de ''boa-sorte, a vaga é sua'' do tiozinho-empreendedor ávido por vender seu produto.

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  5. Caro Alan, estou com você e não abro. Disse no post tudo o que se resume o nosso ideal de "grandeza". E sabe, nessa busca frenética e inconformada de querer mais e mais - o tão sonhado lugar ao sol, tanta coisa se perde pelo caminho. E sabe o quê, NÓS, é, a gente se perde na escalada da ascensão social. É cruel com nós mesmo. Sabe, você começa o texto falando da infância e chega ao inconformismo humano – a insatisfação a que parece estarmos condenados. É isso. E eu pergunto o que resta da infância? Valores, alegria, inocência, sonhos? O se perder é tão impactante que adentro numa miríade negativista e creio que ao longo do crescimento e almejamentos nos tornamos: racionais e objetivamos os novos sonhos - quase todos materiais; individualistas, anti éticos/ morais - o que pode ser traduzido como frios, calculistas que não mais se importa com seres da mesma espécie próximos ou distantes - ou seja: indiferentes; a inocência vira malícia, desconfiança e maldade...e a alegria é solapada pela tristeza, inconstância...Então, a que custos crescemos? Nos descaracterizamos...e como não se deixar sucumbir? Assim...podemos seguir inconformados e quem sabe, reverter os danos desse "crescer", conseguindo ao mesmo tempo, "crescer"/ "ser"...sem continuar no mundo utópico de Peter Pan...mas cientes do mundo em que fazemos parte...com tudo de bom e ruim que ele oferece...e com tudo de bom ou de ruim que queremos ser e atingir.

    Não sei, mas sei, que eu quero ter coragem para viver aqui!

    Um abraço...

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