Persona

Persona
"Fiz de mim o que não soube E o que podia fazer de mim não o fiz. / O dominó que vesti era errado. / Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me. / Quando quis tirar a máscara, Estava pegada à cara. / Quando a tirei e me vi ao espelho, Já tinha envelhecido. / Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado. / Deitei fora a máscara e dormi no vestiário / Como um cão tolerado pela gerência Por ser inofensivo / E vou escrever esta história para provar que sou sublime." [Fernando Pessoa]

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Um “Dissidente da Verdade”


A Verdade partira em debandada. Onde terá se fixado? Quem conseguir alcançá-la avise-me... Coitada, já não se move...

Num diálogo entre Adriano e Epiteto surge a questão:

- “O que é que o homem não pode ver?” – perguntara Adriano.

E Epiteto responde – “O coração e o pensamento de outrem”.

Dessa forma adentramos no campo das percepções, quiçá afetivas, e no terreno instável e subjetivo da dissimulação. Questão que já foi, e talvez ainda seja, fruto de densas discussões.

Só a nível de exemplo temos o testemunho de Jean de Coras, Conselheiro do Tribunal de Toulouse, que num passado distante já dizia: “Não há nada mais detestável, entre os homens, do que fingir e dissimular, embora nosso século [e ele falava do XVI] seja tão desventurado que, em todas as posições, aquele que melhor souber refinar suas mentiras, simulações e hipocrisias muitas vezes é o mais reverenciado...”. Esse discurso me pareceu bastante atual...

É na campo da dissimulação que os seres humanos encenam seus sentimentos e pensamentos. E o uso dela muitas vezes ocorre de forma velada através de retóricas enfadonhas cuja falácia se sustenta na distinção cínica entre mentira e omissão.

Até onde minha vista alcança, foi Jean Baudrillard quem mais se preocupou em refletir sobre a questão da dissimulação. Ele nos diz que o simulacro é a “geração pelos modelos de um real sem origem nem realidade: hiper-real”. Assim, Baudrillard entendia nossa condição como a de uma ordem social na qual os simulacros e os sinais estão, de forma crescente, constituindo o mundo contemporâneo, de tal forma que qualquer distinção entre “real” e “irreal” torna-se impossível. Ou seja, somos todos (ou quase todos) atores de um grande espetáculo social.

Ainda seria possível a confiança? A fidelidade? Ela existiu algum dia...?

Hum... me perdi das horas... Tenho que dormir. Enfim... estou niilista esses dias...

Alan Passos.

Salvador, 05 de Maio de 2011