Persona

Persona
"Fiz de mim o que não soube E o que podia fazer de mim não o fiz. / O dominó que vesti era errado. / Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me. / Quando quis tirar a máscara, Estava pegada à cara. / Quando a tirei e me vi ao espelho, Já tinha envelhecido. / Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado. / Deitei fora a máscara e dormi no vestiário / Como um cão tolerado pela gerência Por ser inofensivo / E vou escrever esta história para provar que sou sublime." [Fernando Pessoa]

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Percepções



Afirmou o grande Tolstoy: “A única certeza absoluta que o homem tem é que a vida não tem sentido”. Estaria essa afirmativa correta? Talvez o não ter sentido já seja um sentido. E isso é fundamental, pois não termos um sentido de existência pré-determinado nos deixa a possibilidade de nos inventarmos e de fazermos isso da melhor forma possível. Talvez fosse mais inteesante se fosse apreendido dessa forma. Pena que a estupidez humana acaba com tudo...

“Nonada”. Não somos nada. O medo do desaparecimento nos atormenta. Estamos aqui, estou escrevendo para mim e na vontade de que alguém leia e comente, sobretudo. Não sei do instante seguinte. Podes sair de casa e não mais retornar... Já imaginaram isso? Será que está cada vez mais difícil se pensar no futuro? Me parece que perdemos a dimensão de um futuro. Acho que estamos, agora sim, pelo menos no caso brasileiro, começando a viver numa “sucessão de agoras”.

O abismo regenerante.

Já imaginou se fosse ao médico e este lhe dissessem que estás com suspeita de alguma doença grave, incurável e que teriam de fazer alguns exames para verificar se essas suspeitas procedem? Qual seria sua reação? Como seriam seus dias na espera do resultado dos exames? Qual seria seu estado (psico)lógico? Como se sentirias ao perceber o aproximar do findar dos seus dias?

E se depois de toda essa tormenta da suspeita, a notícia fosse de que estás ótim@, com a saúde perfeita? Como reagiria? Isso mudaria a sua visão sobre a vida? Deixaria de perder tempo com coisas insignificantes e aproveitaria mais a vida, o viver?

Isso, tangencialmente, nos leva a outra questão. O que nos faz temermos a morte? Seria o medo do desconhecido ou a consciência de não termos feito/alcançado tudo que desejamos e que não teremos mais tempo para tentar realizá-los?

Somos seres finitos que almejamos o infinito, nossa grande tormenta. Percebemos isso, sobretudo na atenção que devotamos ao nosso corpo, a esta coisa que ocupa um lugar no espaço, que é observado e que é objeto de desejo. Estamos em nosso corpo e não podemos deixá-lo. Como diz o Alain Corbin, o corpo é essa co-presença constante conosco mesmos, pois que o sujeito - o eu - existe somente encarnado e, assim, nenhuma distância pode se constituir entre nós e nosso corpo. E também é natural que ele se desgaste com o tempo, pelo menos, desde sempre foi assim...

A vontade de evitar o inevitável faz com que nos ludibriemos com tratamentos que prometem a juventude (sobretudo a facial, a nossa maschera, aquilo que está exposta a todos), em apenas algumas horas. (Obs: Sei que nesse ponto há outros fatores que contribuem para essas práticas, mas, pelo caráter de minha trama quero chamar atenção apenas a esse viés da coisa). Um passeio pelas orlas marítimas e praças e poderemos observar um espetáculo atlético de corpos suando em debandada. O cuidado com o comer: posso isso, não posso aquilo etc. Tanto tratamento com o corpo na tentativa de evitar o inevitável. Mas em relação a isso a retórica dirá que é para um bem viver. Será? Será que por trás dessa justificativa não estaria a nossa perseguição pelo absoluto? Pelo eterno metaforizado em uma vida durável, em longevidade?

As artes, realmente, tem o dom de nos afetar. Aliás, isso apenas para aqueles providos de percepção de beleza o que não inclui os “materialistas” ávidos de consumismo estetizante e que, muitas vezes e cada vez mais frequente, consomem até o outro numa espécie de antropofagia Goyana.

Acho que vou deixar de ver uns filmes... rsrs. Estou Alleniano esses tempos.

Salve salve Woody Allen e sua crítica do social.

Abraços cordiais meus brav@s leitores.

Alan Passos, Salvador, 29 de Junho de 2011.

sábado, 18 de junho de 2011

Os furos do véu


A metáfora do véu cabe perfeitamente à sociedade brasileira. Um véu é aquilo que serve para encobrir e ao mesmo tempo é um fazer-se ver, num jogo de ambigüidade (no sentido metafórico e em alguma medida representacional) irritante e escandalosamente dissimulada em nosso meio. Mas hoje minha interpretação escapa à introdução e tenta observar outro ângulo.

Terça-feira, 14 de junho de 2011. Essa foi a data da publicação do noticiário do Jornal A Tarde sobre um bem-sucedido blog.

O blog ativo desde fevereiro (A Girl Gay in Damascus) adquiriu grande sucesso, com milhares de seguidores e dotado de atenção da Imprensa, pois que era alçado como uma fonte de informação confiável sobre os eventos da Síria e da repressão do regime de Bashar al-Assad.

A autora era uma lésbica síria chamada Amina Abdalla Arraf al Omari, 25 anos, com dupla nacionalidade síria e estadunidense, que descrevia o cotidiano em Damasco em meio ao fatos ocorridos nas últimas semanas. Através de seus véus relatava também dados sobre suas relações sentimentais e a vida social, criticas ao regime de Damasco e reflexões sobre o momento político.

Omari deu até entrevistas a imprensa, como a agência estadunidense Associated Press, respondendo perguntas via email que foram reproduzidas em vários jornais do mundo. Mas, pra variar, o diabo esqueceu o rabo do lado de fora e alguém viu...

O acontecimento: em um post no blog, atribuído a um primo de Amina, dizia que a blogueira tinha sido detida por homens armados, supostamente membros do partido Baath, do presidente Assad e que pedia ajuda para tentar localizá-la.

O desaparecimento se converteu em notícia de impacto internacional, (deu até no New York Times!) o que provocou uma investigação pelas autoridades dos EUA que checou a informação e disse não ter existência de uma pessoa com dupla nacionalidade com esse nome de Amina. (O leitor que bravamente chegou até a essas linhas, muita atenção que agora a coisa começa a ficar mais interessante...)

Coincidentemente o nome (Amina...) correspondia a uma cidadã residente em Londres, cujo fotografia foi divulgada na net, causando um maior embaraço para essa cidadã, que teve de negar reiteradas vezes qualquer relação identitária com essa lésbica.

É nesse contexto que o real autor do blog resolver revelar sua persona e tangencialmente reabriu o debate sobre a credibilidade da informação em rede, e por extensão, da poderosa imprensa. Ele se chama Tom MacMaster, estudante estadunidense que reside na Escócia. (Esses estadunidenses têm uma incrível capacidade de polemizar as coisas...)

Ele então publicou um texto de pedido de desculpas no blog afirmando que não esperava tamanho sucesso de suas postagens. Mas, afirmando que embora a voz narrativa fosse fictícia os fatos eram verdadeiros e que não enganou ninguém sobre a realidade dos fatos narrados. Fica a dúvida: será que ele nesse momento estava falando a verdade ou era mais uma criação? Caímos na famosa aporia do cretense...

Toda essa exposição inicial foi para chegarmos a uma reflexão sobre a confiabilidade daquilo que nos é cotidianamente veiculado como informações pelos mass midia. Os meios tecnológicos, sobretudo a internet, aliado à globalização nos permite essa possibilidade de saber de tudo, sobre todos os lugares, em qualquer período. Somos bombardeados de informações a cada segundo em escala mundial e nem sequer nos questionamos sobre o estatuto dessas informações.

O blog só foi questionado por um incidente, um escorrego do autor (a fantasiosa prisão) que, quiça el@, não imaginasse que fosse repercutir de tamanha forma e que provocou o desmascaramento do aut@r. Aliás a palavra aqui é bem pregada desmascarar, ou seja, tirar a máscara como no poema de Fernando Pessoa. Ide lá, meus atenciosos leitores, e leiam mais uma vez aquele excerto magnífico da poesia do Pessoa que habita do meu blog.

Abraços cordiais.

Alan Passos - Salvador, 19 de Junho de 2011.