
Afirmou o grande Tolstoy: “A única certeza absoluta que o homem tem é que a vida não tem sentido”. Estaria essa afirmativa correta? Talvez o não ter sentido já seja um sentido. E isso é fundamental, pois não termos um sentido de existência pré-determinado nos deixa a possibilidade de nos inventarmos e de fazermos isso da melhor forma possível. Talvez fosse mais inteesante se fosse apreendido dessa forma. Pena que a estupidez humana acaba com tudo...
“Nonada”. Não somos nada. O medo do desaparecimento nos atormenta. Estamos aqui, estou escrevendo para mim e na vontade de que alguém leia e comente, sobretudo. Não sei do instante seguinte. Podes sair de casa e não mais retornar... Já imaginaram isso? Será que está cada vez mais difícil se pensar no futuro? Me parece que perdemos a dimensão de um futuro. Acho que estamos, agora sim, pelo menos no caso brasileiro, começando a viver numa “sucessão de agoras”.
O abismo regenerante.
Já imaginou se fosse ao médico e este lhe dissessem que estás com suspeita de alguma doença grave, incurável e que teriam de fazer alguns exames para verificar se essas suspeitas procedem? Qual seria sua reação? Como seriam seus dias na espera do resultado dos exames? Qual seria seu estado (psico)lógico? Como se sentirias ao perceber o aproximar do findar dos seus dias?
E se depois de toda essa tormenta da suspeita, a notícia fosse de que estás ótim@, com a saúde perfeita? Como reagiria? Isso mudaria a sua visão sobre a vida? Deixaria de perder tempo com coisas insignificantes e aproveitaria mais a vida, o viver?
Isso, tangencialmente, nos leva a outra questão. O que nos faz temermos a morte? Seria o medo do desconhecido ou a consciência de não termos feito/alcançado tudo que desejamos e que não teremos mais tempo para tentar realizá-los?
Somos seres finitos que almejamos o infinito, nossa grande tormenta. Percebemos isso, sobretudo na atenção que devotamos ao nosso corpo, a esta coisa que ocupa um lugar no espaço, que é observado e que é objeto de desejo. Estamos em nosso corpo e não podemos deixá-lo. Como diz o Alain Corbin, o corpo é essa co-presença constante conosco mesmos, pois que o sujeito - o eu - existe somente encarnado e, assim, nenhuma distância pode se constituir entre nós e nosso corpo. E também é natural que ele se desgaste com o tempo, pelo menos, desde sempre foi assim...
A vontade de evitar o inevitável faz com que nos ludibriemos com tratamentos que prometem a juventude (sobretudo a facial, a nossa maschera, aquilo que está exposta a todos), em apenas algumas horas. (Obs: Sei que nesse ponto há outros fatores que contribuem para essas práticas, mas, pelo caráter de minha trama quero chamar atenção apenas a esse viés da coisa). Um passeio pelas orlas marítimas e praças e poderemos observar um espetáculo atlético de corpos suando em debandada. O cuidado com o comer: posso isso, não posso aquilo etc. Tanto tratamento com o corpo na tentativa de evitar o inevitável. Mas em relação a isso a retórica dirá que é para um bem viver. Será? Será que por trás dessa justificativa não estaria a nossa perseguição pelo absoluto? Pelo eterno metaforizado em uma vida durável, em longevidade?
As artes, realmente, tem o dom de nos afetar. Aliás, isso apenas para aqueles providos de percepção de beleza o que não inclui os “materialistas” ávidos de consumismo estetizante e que, muitas vezes e cada vez mais frequente, consomem até o outro numa espécie de antropofagia Goyana.
Acho que vou deixar de ver uns filmes... rsrs. Estou Alleniano esses tempos.
Salve salve Woody Allen e sua crítica do social.
Abraços cordiais meus brav@s leitores.
Alan Passos, Salvador, 29 de Junho de 2011.


A metáfora do véu cabe perfeitamente à sociedade brasileira. Um véu é aquilo que serve para encobrir e ao mesmo tempo é um fazer-se ver, num jogo de ambigüidade (no sentido metafórico e em alguma medida representacional) irritante e escandalosamente dissimulada em nosso meio. Mas hoje minha interpretação escapa à introdução e tenta observar outro ângulo.
