Persona

Persona
"Fiz de mim o que não soube E o que podia fazer de mim não o fiz. / O dominó que vesti era errado. / Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me. / Quando quis tirar a máscara, Estava pegada à cara. / Quando a tirei e me vi ao espelho, Já tinha envelhecido. / Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado. / Deitei fora a máscara e dormi no vestiário / Como um cão tolerado pela gerência Por ser inofensivo / E vou escrever esta história para provar que sou sublime." [Fernando Pessoa]

quinta-feira, 17 de março de 2011

Corpos violentados


Três corpos esparramados sobre a mesa. Essa foi à cena, perversamente despercebida por muitos transeuntes, pois este é um escândalo cotidiano. Felizmente (e infelizmente, pois estava numa conversa cujo assunto foi desagradável) estava ali com minhas duas lentes caçadoras de supostas banalidades diárias para narrar aqui para meus fiéis leitores. O palco era a luxuosa praça de alimentação do afamado Salvador Shopping.

Dormiam as belas tristonhas meninas numa expressão de exaustão que tive uma sensação de cansaço só de olhar. Queria fotografá-las, congelar aquela cena e postar em meu blog, mas não quiseram me emprestar a câmera fotográfica...

Vestiam-se com uma mortalha tingida com um marrom escalonado para o cinza provocando uma visão espectral. Foi-me impossível descrever as suas faces, pois estas estavam censuradas e colocaram-nas, em cada uma delas, uma máscara cujo propósito é incitar aquilo que Naomi Wolf chama de “competição entre si através da beleza” numa espécie redimensionada de seleção natural que afeta os animais e, exigida e imposta, pelos patrões contratadores através de um padrão vulgarizado pelos media. Somos todos narcisistas...

Acredito que estavam no “horário de descanso”. Mas descansar onde? Não há espaço de descanso nas lojas. Estas (cada vez mais) não são projetadas visando um espaço de “descanso” para que seus funcionários usufruam. Aliás, estes são apenas imaginados enquanto força de trabalho a ser vorazmente consumida. Então, daí o improvisamento daquela mesa metamorfoseada em uma cama que, diga-se de passagem, nada confortável.

Infelizmente esse é o preço que grande parte de nossa população brasileira tem de pagar por existir um enorme contingente de miseráveis dispostos e entusiasmados a trabalharem, aliás, a serem super explorados, por um ínfimo salário.

Portanto, finalizo por aqui essa breve reflexão, que poderei percebê-la como um microcosmo da realidade brasileira, mais especificamente a soteropolitana, sobre (como diz o animado Antonio L. Negro) as exorbitantes desigualdades historicamente duráveis em nosso querido Brasil.

Salvador, madrugada de 18 de Março de 2011.

Alan Passos.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Batuques estrondosos


Barulho: Desordem ruidosa entre muitos, grande ruído, mistura, confusão, atrapalhação. Essas são formas atuais de definição do termo, mas que tem raízes antigas, ou melhor, históricas.

É sabido que no século 19, na então querida Bahia de todos os Santos, a população que se auto-intitulava mais ‘civilizada’ denunciava, via notas em jornais, os “ajuntamentos de negros e gente da pior qualificação sócio-moral”, que se reuniam para se divertirem ao som tão disputado (no meio intelectual) samba (baiano ou carioca?), enfim, brasileiro! O barulho dispersado nesses divertimentos incomodava os ‘cultos’ ouvidos sensíveis da cidade. Porém, nesse tempo não era incomum a inclusão de pessoas socialmente consideradas ‘superiores’, isto é, policiais, delegados, soldados e até senhorinhas, nos meios perniciosos e lascivos onde aconteciam os batuques. Mesmo assim, os sambas e os motins perniciosos foram, em diversos momentos, reprimidos através de perseguição policial, espancamento e prisões. Acredito não ser necessário fornecer mais informações do contingente étnico-social que se reuniam nesses sambas e divertimentos...

Dando um salto no tempo, nos dias atuais, a cidade de Salvador foi eleita a capital mais barulhenta do Brasil. Aqui onde o barulho (e a confusão) já faz parte do ser soteropolitano, novamente, os ouvidos sensíveis danam a reclamar...

O mais atual drama ocorrido se fez nas mediações de um dos locais onde o metro quadrado é um dos mais caros desta Cidade: Av. Tancredo Neves. A construção do Salvador Shopping, criativa e inesperadamente, foi o pivô da história. Ele atraiu ao seu entorno, mais especificamente, no estacionamento (que mais uma vez criativamente) aos finais de semana se transformava em uma passarela de lanches e bares desmontáveis, “micros trio elétricos” instalados nas malas de automóveis populares que infernizavam os “ouvidos eruditos” da população residencial daquela região com as vulgares canções (ou barulhos) perniciosos e excitadores de orgias regadas à cachaça, que diga-se de passagem, não pode faltar...

Não tardou e a (tele)impressa, que aliás, representa os grupos sociais incomodados com o barulho, a iniciar uma saga pró expulsão daqueles indivíduos indecentes e desrespeitosos.

É interessante perceber, que esses mesmos grupos incomodados com o barulho dos finais de semana em seu bairro são representantes de uma camada social imensa que patrocina o carnaval de salvador através da compra dos abadás e que ajudam a fazer um terrível barulho durante uma semana em diversos bairros do centro e orla soteropolitana sem se importarem com a população residente daquelas regiões invadidas pela folia.

Ah, vale lembrar também, que os sons dos tambores que fez fama ao bairro do Candeal, que hoje é considerado um bairro de classe média, são obrigados a ficarem silenciosos...

Acredito que seja consensual que a paisagem sonora soteropolitana não é das melhores... mas como agir contra o habitus?

Dessas linhas pode se depreender que, mesmo que talvez estejamos num novo processo de “civilidade” o silêncio ainda continua a ser um requisito preponderante e, numa percepção sutil, que ele é legitimador de um discurso de superioridade sócio-econômica. Dito de outra forma: barulho é coisa de pobre e vadio, apenas permitido aos doutos (playboys e patricetes) em momentos específicos: em algumas algazarras de finais de semanas em locais afastados de sua localidade de residência e na festa de inversão social que é o carnaval. Que aliás, só pra comentar, a inversão social no carnaval de Salvador é cada vez menos percebida, ou seja, o que observamos a cada ano é a manutenção da hierarquia social mesmo numa festa de inversão...

O Brasil e, sobretudo a Bahia, é um local onde as impossibilidades se tornam possíveis...

Salvador, 12 de Março de 2010

Alan Passos.

domingo, 6 de março de 2011

O ninguém que queremos ser.


Aprendemos a ser insatisfeitos. Como tudo nessa vida, há um ponto positivo nisso. Mas não é esse lado da discussão que pretendo argumentar.

Quando éramos crianças queríamos ser grande, grandiosos. Quando estamos crescidos percebemos o quanto era bom quando éramos crianças. Almejamos entrar na Universidade e quando a adentramos já começamos a maquinar como será ao sair dela. O embate do quotidiano nos espera e será necessário ser um bom navegador para não ficar à deriva...

Nos dias atuais o fetiche do concurso público nos atormenta. A indecisão e a expectativa tantas vezes frustrada nos embala freneticamente em busca de uma suposta “melhora” na condição socioeconômica e, conseqüentemente, no mercado afetivo. Mas este, principalmente, é um tema tabu, não se pode comentar... e quando hipoteticamente argumentado é imediatamente refutado. Bem à brasileira...

Acontece que nos formamos, passamos em um concurso público e descobrimos que existe outro cargo melhor numa outra instituição e lá vamos nós novamente embalados pela busca de um labor menos entediante e mais rentável. Pois é, somos exigentes.

Os bens materiais, e quiçá os afetivos, outrora adquiridos não mais nos serve. Nada presta. Precisamos trocar tudo. Renovar, rápido. O impacto midiático com sua máquina discursiva nos embebeda de ilusões desejáveis e somos extasiados pela gana muitas vezes contestada. Tornamos-nos traumáticos.

Estamos nos dissolvendo, para usar uma metáfora baumaniana... Desejamos ser outra coisa, sempre. Somos, ou maioria das pessoas são, constantemente inconstante. Mas por quê?

Salvador, 7 de Março de 2011

Alan Passos.