Persona

Persona
"Fiz de mim o que não soube E o que podia fazer de mim não o fiz. / O dominó que vesti era errado. / Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me. / Quando quis tirar a máscara, Estava pegada à cara. / Quando a tirei e me vi ao espelho, Já tinha envelhecido. / Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado. / Deitei fora a máscara e dormi no vestiário / Como um cão tolerado pela gerência Por ser inofensivo / E vou escrever esta história para provar que sou sublime." [Fernando Pessoa]

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Carnaval


Todos os sistemas constroem suas festas de muitos modos. No caso do Brasil, a maior e talvez a mais importante, mais irreverente e mais popular de todas seja o carnaval. Uma festa perturbadora da ordem social. No carnaval um momento extra-ordinário é criado. Assim como nas comédias, é o momento onde o triste e o trágico devem ser banidos.

Sabemos que o carnaval é definido como "liberdade" e como possibilidade de viver uma ausência fantasiosa e utópica de miséria, trabalho, obrigações, pecado, deveres e talvez até, para alguns, uma ausência de "rejeição" afetiva/amorosa. É a oportunidade de fazer tudo so contrário; é o momento de prazer sensual que fica - finalmente - ao alcance de todos. A regra do carnaval é praticar sistematicamente todos os excessos!

O carnaval é uma inversão temporária do mundo. Uma catástrofe. Nele troca-se a noite pelo dia; ou o que é ainda mais inverossímel: faz-se uma noite em pleno o dia, substituindo os movimentos da rotina diária pela dança e pelas harmonias dos movimentos coletivos. No carnaval, troca-se o trabalho que castiga o corpo pelo o uso do corpo como instrumento de "beleza" e prazer. No trabalho, entraga-se, submete-se e gasta-se o corpo. no carnaval, isso também ocorre, mas de modo inverso. Aqui o corpo é gasto pelo prazer.

Em alguns locais o carnaval permite a troca de uniformes pelas fantasias. No caso de Salvador, as pessoas estão, de forma cada vez mais ascendente, uniformemente fantasiadas! E a percepção disso faz com que se crie um novo setor que se encarregue de ilusioriamente distinguir essa uniformização fantasiante, surgindo assim as chamadas customizações.

É interessante notar que, no Brasil, não falamos em máscaras, mas em fantasias. Esse termo é mais abrangente em pelo menos dois sentidos muito precisos. Primeiro, ele diz mais do que algo que serve apenas para tapar ou disfarçar o rosto ou o nariz. Depois, porque a palavra "fantasia" tem duplo sentido. É algo que se pode pensar acordado, o sonho que se tem quando a rotina mais nos escraviza e revolta; e também a roupa que só se usa no carnaval ou para uma siruação carnavalizadora. Assim, ela permite que se possa ser tudo o que se queira, mas que a "vida" não permitiu. Com ela consegue-se uma espécie de compromisso entre o que realmente se é e o que se gostaria de ser. É a fantasia que permite passar de ninguém a alguém; de marginal do mercado de trabalho a figura mitológica de uma história absolutamente essencial para a criação do momento mágico do carnaval.

Se no mundo diário estamos todos limitados pelo dinheiro que se ganha (ou que não se ganha...), pelas regras da sociedade, do mercado, da casa e da família, no carnaval e na fantasia tem-se a possibilidade do disfarce e da liberação. Talvez esteja aí uma das explicações essenciais para que se entenda o porquê essa festa seja um grande espetáculo de nosso Brasil, e em especial, de Salvador. Justamente por ter esse caráter dissimulatório e disfarçante que é da natureza do nosso país. Daí o aprazeiramento coletivo que enlouquece a todos, ou a grande maioria.

É a sensação de liberdade numa sociedade onde as regras do mundo diário estão temporariamente de cabeça para baixo. Sensação de liberdade que me parece fundamental numa sociedade cuja rotina é dominada pelas hierarquias que sujeitam a todos a uma escala complexa de direitos e deveres vindo de cima para baixo, dos superiores para os inferiores, "dos 'elementos' que entram na fila e das 'pessoas' que jamais são vistas em público como comuns".

Uma coisa interessante é que o carnaval obriga a uma grave sinceridade. Não se pode frquentar o carnaval sem vontade. De fato, pode-se ir a uma cerimônia oficial, como uma formatura, posse ou casamento, sem sentir nada, até mesmo achando tudo aquilo maçante. Mas não se pode fazer o mesmo no carnaval, onde o corpo e alma devem estar juntos e será punido aquele que se mostrar "bem comportado".

Carnaval, pois, é a inversão duma sociedade marcada pela hierarquia. É movimento numa sociedade que tem horror à mobilidade, sobretudo à mobilidade que permite trocar efetivamente de posição social. É exibição numa ordem social marcada pelo falso recato de "quem conhece o seu lugar" - algo sempre usado pelo mais forte para controlar o mais fraco em todas as situações. É feminismo num universo social e cosmológico marcado pelos homens que controlam tudo o que é externo e jurídico, como os negócios, a religião "oficial", a política. Por tudo isso o carnaval é a possibilidade utópica de mudar de lugar, de trocar de posição na estrutura social. Pena que tudo isso só sirva para provar o seu oposto...

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Estranha ciranda


A noite é perigosa. Em diversas culturas é um período sombrio e certamente a grande geradora dos mitos, com os quais a humanidade explicava seus temores. Ruídos inexplicáveis, visões enevoadas acendiam a imaginação, fazendo surgirem vampiros, lobisomens, deuses iracundos e toda sorte de entidades feéricas.
Mas a noite de que trato nesse pequeno texto não é mais uma noite mítica, talvez até ainda seja para alguns, mas para mim foi bastante real.
Parecia uma noite normal que, à medida que a tarde se ia, ela se achegava, sorrateira. Eu caminhava por lugares antigos da cidade nos quais ainda hoje é possível se perceber, tanto simbólico como visivelmente, um continuum da opressão invisibilizada porque cotidiana. Uma multidão de condenados, de toda uma classe de indivíduos "precarizados" que se reproduz a gerações enquanto tal, desprovidos das pré-condições sociais, morais e culturais habitam esta região que à noite de torna bela e sombria. São o grupo de pessoas que o debate público trata como um conjunto de "indivíduos" carentes ou perigosos que Jessé de Souza denominou-os fantasticamente de "a ralé brasileira". Uma classe de excluída de todas as oportunidades materiais e simbólicas de reconhecimento social.
Como é de se imaginar esses habitantes, em sua grande maioria, fazem uso de substâncias tóxicas psicoativas que acaba influenciando no seu comportamento social. Ora, essas substâncias não são obtidas gratuitamente. Elas são compradas. E de onde vem a grana para comprá-las? Da noite. E, na grande maioria das vezes, dos furtos noturnos praticados cotidianamente do qual eu fui vítima numa dessas noites e que relatarei brevemente:
Fui cercado pel'aquela estranha ciranda de jovens indivíduos, uns seis ou sete, que me apalpavam em busca de pertences materiais que pudessem ser trocados por alguns minutos de ilusão... O engraçado disso tudo foi que a ânsia pelo momento de prazer ilusionista almejado pelos jovens; e a escassez de pertences com algum valor de troca desejado, em meu corpo, fez com que naquele momento esdrúxulo os indivíduos ainda estabelecessem uma discussão entre si sobre quem teria chegado primeiro e que teria o direito real de me extorquir. Foi um espetáculo aquilo tudo!
Assim, após um deles furtarem meu apareloho celular, pude voltar a caminhar por aquela noite estranha e, felizmente, ileso.
Enfim, temos então a hedionda dupla: conduta antijurídica e substâncias tóxicas psicoativas. Por favor, não me tenham como determinista! São apenas o que as evidência e experiência mostram...

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Ser


Será que nós, humanos, somos seres egoístas por excelência? Não sei mais o que escrever sobre isso no momento. Estou perturbado...

Comentem aí: se quiserem... Quem sabe a partir do que vocês comentarem eu consiga escrever algo...