
François Dosse refletindo sobre a narrativa historiográfica diz que “o discurso histórico é fortemente marcado pela importância da retórica argumentativa”. A partir desse fragmento tive uma idéia...
O momento não me parece mais oportuno... e então fui tentado a redigir essa breve comparação entre dois casos distantes espacial e temporalmente, mas que trazem em si preciosas semelhanças.
O Povo brasileiro está comovido. A mídia progressivamente se especializa no discurso apelativo que sensibiliza a nação. Somos todos afetados.
Aos 3 dias do mês de Junho de 1835, numa pequena comuna francesa chamada Aunay, um terrível assassinato alarma a pequena e estática localidade. Pierre Rivière degola sua mãe (Victorie Brion) com mais ou menos quarenta anos e que estava grávida, seu irmão (Jules Rivière) de sete a oito anos e sua irmã (Victoire Rivière).
176 anos após o caso de Rivière, aos 5 dias do mês de Abril de 2011, na então Cidade Maravilhosa do Brasil (RJ), uma personagem chamada Wellington Menezes de Oliveira portando dois revólveres e munição adentra um Colégio público e atira nos estudantes que assistiam aulas, assassinando mais de 12 pessoas.
Coincidentemente, assim como Rivière, Wellington era um sujeito pacato, quieto, de poucas palavras. Porém, ao contrário de Wellington que suicidou-se após o atentado, Rivière saiu em fuga, mas foi capturado mais ou menos um mês após seu crime.
Outros fatos também coincidem entre as duas narrativas, a saber: a premeditação e um relato feito pelas personagens agentes do crime no qual consta vestígios narrativos de ideologia religiosa. Rivière, após ser preso e interrogado, escreve um memorial relatando sobre as razões que o motivara ao crime, enquanto Wellington, talvez já prevendo a possibilidade do suicídio, deixa uma carta relatando an passant as possíveis motivações que o levara a praticar o delito.
No tempo de Rivière o principal meio de publicidade era o jornal impresso (para os letrados) e o chamado “boca-a-boca”, ou seja, o fuxico (para a ralé). Já no período de Wellington, os meios de comunicação modernos e espetacularmente rápidos, sobretudo a TV e a Internet, veicularam as possíveis especulações racionais desejosas de explicações para o ocorrido.
Assim, em ambos os casos, todos falam ou parecem falar da mesma coisa: o acontecimento do assassinato. Porém observa-se também uma batalha discursiva entre discursos de origem, forma, organização, função e especialidades diversas (médicos, judiciários, psicológicos, criminológicos, publicitários) racionalizantes e redutoras ávidas por explicações necessárias. É nessas formas de interpretações diversas entre os variados campos epistemológicos discursivos que Foucalt percebe as relações de poder e de saber.
Então, assim como Foucalt não se permitiu interpretar o caso de Rivière, pois que nisso estaria implícito uma tomada de posição de um desses discursos, não interpretarei o ato de Wellington que me custaria também uma tomada de posição impondo uma relação de força com efeito redutor da trama.
Vejamos os próximos episódios...
Salvador, 7 de Abril de 2011.
Alan Passos.
