Persona

Persona
"Fiz de mim o que não soube E o que podia fazer de mim não o fiz. / O dominó que vesti era errado. / Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me. / Quando quis tirar a máscara, Estava pegada à cara. / Quando a tirei e me vi ao espelho, Já tinha envelhecido. / Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado. / Deitei fora a máscara e dormi no vestiário / Como um cão tolerado pela gerência Por ser inofensivo / E vou escrever esta história para provar que sou sublime." [Fernando Pessoa]

sexta-feira, 11 de março de 2011

Batuques estrondosos


Barulho: Desordem ruidosa entre muitos, grande ruído, mistura, confusão, atrapalhação. Essas são formas atuais de definição do termo, mas que tem raízes antigas, ou melhor, históricas.

É sabido que no século 19, na então querida Bahia de todos os Santos, a população que se auto-intitulava mais ‘civilizada’ denunciava, via notas em jornais, os “ajuntamentos de negros e gente da pior qualificação sócio-moral”, que se reuniam para se divertirem ao som tão disputado (no meio intelectual) samba (baiano ou carioca?), enfim, brasileiro! O barulho dispersado nesses divertimentos incomodava os ‘cultos’ ouvidos sensíveis da cidade. Porém, nesse tempo não era incomum a inclusão de pessoas socialmente consideradas ‘superiores’, isto é, policiais, delegados, soldados e até senhorinhas, nos meios perniciosos e lascivos onde aconteciam os batuques. Mesmo assim, os sambas e os motins perniciosos foram, em diversos momentos, reprimidos através de perseguição policial, espancamento e prisões. Acredito não ser necessário fornecer mais informações do contingente étnico-social que se reuniam nesses sambas e divertimentos...

Dando um salto no tempo, nos dias atuais, a cidade de Salvador foi eleita a capital mais barulhenta do Brasil. Aqui onde o barulho (e a confusão) já faz parte do ser soteropolitano, novamente, os ouvidos sensíveis danam a reclamar...

O mais atual drama ocorrido se fez nas mediações de um dos locais onde o metro quadrado é um dos mais caros desta Cidade: Av. Tancredo Neves. A construção do Salvador Shopping, criativa e inesperadamente, foi o pivô da história. Ele atraiu ao seu entorno, mais especificamente, no estacionamento (que mais uma vez criativamente) aos finais de semana se transformava em uma passarela de lanches e bares desmontáveis, “micros trio elétricos” instalados nas malas de automóveis populares que infernizavam os “ouvidos eruditos” da população residencial daquela região com as vulgares canções (ou barulhos) perniciosos e excitadores de orgias regadas à cachaça, que diga-se de passagem, não pode faltar...

Não tardou e a (tele)impressa, que aliás, representa os grupos sociais incomodados com o barulho, a iniciar uma saga pró expulsão daqueles indivíduos indecentes e desrespeitosos.

É interessante perceber, que esses mesmos grupos incomodados com o barulho dos finais de semana em seu bairro são representantes de uma camada social imensa que patrocina o carnaval de salvador através da compra dos abadás e que ajudam a fazer um terrível barulho durante uma semana em diversos bairros do centro e orla soteropolitana sem se importarem com a população residente daquelas regiões invadidas pela folia.

Ah, vale lembrar também, que os sons dos tambores que fez fama ao bairro do Candeal, que hoje é considerado um bairro de classe média, são obrigados a ficarem silenciosos...

Acredito que seja consensual que a paisagem sonora soteropolitana não é das melhores... mas como agir contra o habitus?

Dessas linhas pode se depreender que, mesmo que talvez estejamos num novo processo de “civilidade” o silêncio ainda continua a ser um requisito preponderante e, numa percepção sutil, que ele é legitimador de um discurso de superioridade sócio-econômica. Dito de outra forma: barulho é coisa de pobre e vadio, apenas permitido aos doutos (playboys e patricetes) em momentos específicos: em algumas algazarras de finais de semanas em locais afastados de sua localidade de residência e na festa de inversão social que é o carnaval. Que aliás, só pra comentar, a inversão social no carnaval de Salvador é cada vez menos percebida, ou seja, o que observamos a cada ano é a manutenção da hierarquia social mesmo numa festa de inversão...

O Brasil e, sobretudo a Bahia, é um local onde as impossibilidades se tornam possíveis...

Salvador, 12 de Março de 2010

Alan Passos.

Um comentário:

  1. Essa é a realidade dos grandes centros urbanos: a incomunicação! A poluição sonora só faz aumentar a distância entre as pessoas. Diálogos são raros.

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