Persona

Persona
"Fiz de mim o que não soube E o que podia fazer de mim não o fiz. / O dominó que vesti era errado. / Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me. / Quando quis tirar a máscara, Estava pegada à cara. / Quando a tirei e me vi ao espelho, Já tinha envelhecido. / Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado. / Deitei fora a máscara e dormi no vestiário / Como um cão tolerado pela gerência Por ser inofensivo / E vou escrever esta história para provar que sou sublime." [Fernando Pessoa]

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

"Existirmos: a que será que se destina?"


O sentido (se há algum) da existência humana é um tema que desde a Antiguidade tem feito os Homens refletirem sobre a percepção da existência (ou quiçá da passagem) por esse mundo, que desde a natalidade, já se é sabido que é passageira. Diversos debates teológicos e filosóficos tem surgido em torno dessa questão que cotidianamente nos vem à tona através dos diversos canais comunicativos da sociedade, talvez em grande medida metaforizada, e que sempre nos receamos em nos pronuciar. É sobre este tema que me proponho a arriscar um breve ensaio.

A ampulheta do tempo nos move em sentido contrário. A contagem do tempo se faz de forma regressiva a partir de nossa aparição materializada. Temos a ilusão de que quanto mais o tempo passa, mais vivemos. Ou talvez poderíamos estar vivendo, de fato. Mas o que se percebe é que estamos apenas sobrevivendo. Contudo a lógica do tempo é outra... O avançar da temporalidade (que nossa racionalidade não se cansa de codificá-la, de modo que hoje já há até milésimos de segundos!) nos conduz a uma série de experiências que, até certo ponto, são mais ou menos controladas por nossas escolhas.

Cada sociedade produz uma lógica existencial. Não vou me deter em análises historicistas sobre as diversas lógicas existencias ao longo da História porque foge ao objetivo deste ensaio. Me deterei apenas na análise de nossa sociedade contemporânea.

Após alguns episódios que me ocorreram essa semana comecei a refletir qual seria a lógica que rege nossas existências atualmente. E comecei a perceber uma lógica perversa na qual estamos todos habituados, de tal forma, que possivelmente agimos sem perceber. É surpreendente como nosso maior desejo, aquilo que move toda a nossa existência está direcionado para a realização profissional a tão ponto de, às vezes, nos desgarrarmos de quase todos os nossos laços afetivos, de perdermos nossa sensibilidade, para vivermos em prol de um "bom emprego" e da almejada estabilidade. Não desejamos mais viver com intensidade aproveitando toda nossa existência no breve período em que estaremos vivos. Muito pelo contrário: todos almejam se travestir de uma fantasia que lhe sirva de distintivo social e se trancafiar em um escritório de merda onde até o ar é artificial... E no final: um contentamento (ilusório) através do capital pago pela venda de nossa força de trabalho, pela nossa medíocre existência, pelo roubo de nossa possibilidade de vida.

E me pergunto: e o que estamos fazendo de nossas vidas? Que rastros de nossas existências estamos deixando? Algum? Um exército de formigas a produzir, produzir, produzir...em busca de uma ostentação de vida frívola!!!

Até as tão almejadas universidades, com sua intelligentzia, onde deveria ser um local de constestação das ideologias violentadoras da humanidade está se transformando num local de acomodação. Um mero local onde se espetaculariza o rito de passagem de um lugar social às vezes desprivilegiado para se tornar mais um legitimador da ordem vigente.

Vivemos em um arcabouço temporal marcado pela vitória progressiva do tempo monocrômico, determinado e restritivo. O nosso tempo de lazer, de diversão, de convivência social está consagrado à recriação da força de trabalho. Após uma extensa semana cronometricamente determinada pelas famosas agendas, (já que não somos como Funes, el memorioso) cada vez mais "necessárias" porque nossa mente não consegue mais dar conta da quantidade de tarefas que devemos fazer por dia, daí a necessidade de previsão que limita nossa liberdade, paramos ao domingo apenas porque estamos esmagado, sem mais condições nenhuma de produzir nem nos divertir. Então nos trancafiamos em casa, ou melhor, nos quartos solitários densamente povoado pela presença de amigos online...

"O que foi feito amigo de tudo que a gente sonhou? O que foi feito da vida? O que foi feito do amor?" Pensemos nisso. Não deixemos que o cotidiano nos embote. Precisamos nos dar prazer...


Salvador, 26 de Setembro de 2010.
Alan Passos.