Persona

Persona
"Fiz de mim o que não soube E o que podia fazer de mim não o fiz. / O dominó que vesti era errado. / Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me. / Quando quis tirar a máscara, Estava pegada à cara. / Quando a tirei e me vi ao espelho, Já tinha envelhecido. / Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado. / Deitei fora a máscara e dormi no vestiário / Como um cão tolerado pela gerência Por ser inofensivo / E vou escrever esta história para provar que sou sublime." [Fernando Pessoa]

domingo, 31 de janeiro de 2010

Patrocínio


Segundo o Priberam: "amparo, auxílio, proteção". São essas as definições de uma palavra que anda na boca de uma grande parte dos adolescentes masculinos soteropolitanos "desprovidos de numerários". Falarei apenas destes porque são os que eu conheço mais de perto, mas acredito que o fenômeno esteja disseminado por todas as regiões. Vejamos:

O mercado de trabalho tem se tornado cada vez mais exigente no tocante à escolaridade mínima dos seus funcionários. O básico exigido é a conclusão do chamado "Ensino Médio"que a cada dia tem se tornado cada vez mais um "tabu", no sentido de um sentimento social coletivo sobre um determinado comportamento, na "galerada" adolescente. Isso, por um lado é fruto de uma escola pública sucateada e deficiente; e, por outro lado, e esse mais importante, consequência de um imaginário social do prazer e diversão que são encontrados nas baladas de finais de semana (que às vezes acontecem também no decorrer da semana) que volta a atenção da "galerada" apenas para esses momentos de diversão. Sem entrar aqui em questões mais complexas como a da permissividade exacerbada dos pais para com seus filhos.

A atenção desses adolescentes que deveriam está, principalmente, voltada para a formação escolar, no meu ponto de vista, acaba sendo direcionada para esses ambientes (acho que não é necessário eu citar os quais) de manifestação da libido. Ora, só que para adentrar esses ambientes, além de ter que possuir um capital básico de consumo é necessário também que esses adolescentes se travistam de modo que possam se sentir incluídos e objetos de desejo e admiração. Entramos aqui no universo, cada vez mais homonegeizante, do "fazer-se ver", ser notado etc.

Como os adolescentes masculinos que estou analisando aqui são os que são "desprovidos de numerários", não conseguem emprego por conta da escolaridade básica exigido pelas empresas e os pais não sustentam economicamente nem "visualmente" as baladas libidinosas de seus filhos, eles acabam direcionando suas pretensões para os chamados "patrocínios": termo que passou a significar o homossexual masculino. Assim, nessa relação onde os interesses, a priori, estão conscientemente determinados (porém às vezes camufladas) por ambas as partes, tanto à do homossexual (pelo menos no primeiro momento) quanto à do adolescente envolvido, se estabelece a "troca". Mas essa "troca" se faz em formas de "presentes", e como diz os provérbios da Cabília que Pierre Bourdieu recolheu, o "presente é um infortúnio porque, no final das contas, é preciso retribuí-lo. Ele contém uma ameaça: obriga à retribuição, e à retribuição com acrescimo; isto é, cria obrigações, é um modo de reter, criando devedores".

Assim temos aí uma forma bem brasileira de malandragem, no sentido de "forma de navegação social" que cria essa forma de relação criativa e conciliatória que nada mais é do que modos engenhosos de "tirar partido" de certas situações. Porém é válido ressaltar que não é raro que dessas relações ocorra, de fato, uma relação amorosa homossexual que, pelo fato do poder da discriminação em nossa sociedade, permanecem de forma velada. Termino por aqui.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

O Espetáculo Social


Vivemos cada vez mais habituados a uma perversão de vida moderna (ou pós-moderna como preferem alguns) onde o "ter" ou o "parecer ter" é cada vez mais valorizado passando a ser sinônimo de "caráter" social. as relações sociais se mostram cada vez mais instáveis e fingidas. É a sociedade do espetáculo que se consolida e que prefere a imagem, a representação e a aparência em detrimento do ser. Numa sociedade onde nossos desejos são cada vez mais forçados a serem reprimidos, e que parece estar descompassada em relação com tudo que a habita. A "civilização" impõe ao homem que renuncie a seus desejos, que os reprima. O homem torna-se neurótico porque não consegue suportar o grau de renúncia exigido pela sociedade em nome de seu ideal cultural. A civilização do progresso, da dominação da natureza, da felicidade e da razão é assim um "deplorável fracasso", inclusive em seus sucessos. Pois a cada conquista da racionalidade encontra seu duplo no aparecimento de um sofrimento mais pesado. Tomo a espressão de Raoul Vaneigem que diz que estamos nos conformando (ou já conformados) a viver "numa democracia de supermercado, numa autonomia de self service e num hedonismo onde nossos prazeres são comprados". O coletivismo cedeu lugar a um individualismo acentuado. A falta de esperança é assustadora. Tudo é incerto, "líquido", e o pensamento do planejamento e da ação em longo prazo foi transformado numa série de episódios de curto prazo que são infinitos. Assim, por mais fora de "moda" que seja, ainda acredito (ou quero acreditar) numa revolta. Numa revolta das massas que seja fruto de uma negação e oposição radical à ordem dominante (se bem que as configurações sociais da atualidade não se mostrem direcionar para esse caminho...). Enfim, espero que se acabe a exploração (ou talvez que se humanize essa exploração) e que se promova a "erotização geral da existência". Só lembrando que essa "erotização da existência" não tem nada a ver com os espetáculos promovidos nos finais de semana que movimentam Salvador... (rsrs)

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Pequena nota inicial

Ainda preciso postar meu primeiro texto mas preciso de tempo para escrevê-lo...