
Segundo o Priberam: "amparo, auxílio, proteção". São essas as definições de uma palavra que anda na boca de uma grande parte dos adolescentes masculinos soteropolitanos "desprovidos de numerários". Falarei apenas destes porque são os que eu conheço mais de perto, mas acredito que o fenômeno esteja disseminado por todas as regiões. Vejamos:
O mercado de trabalho tem se tornado cada vez mais exigente no tocante à escolaridade mínima dos seus funcionários. O básico exigido é a conclusão do chamado "Ensino Médio"que a cada dia tem se tornado cada vez mais um "tabu", no sentido de um sentimento social coletivo sobre um determinado comportamento, na "galerada" adolescente. Isso, por um lado é fruto de uma escola pública sucateada e deficiente; e, por outro lado, e esse mais importante, consequência de um imaginário social do prazer e diversão que são encontrados nas baladas de finais de semana (que às vezes acontecem também no decorrer da semana) que volta a atenção da "galerada" apenas para esses momentos de diversão. Sem entrar aqui em questões mais complexas como a da permissividade exacerbada dos pais para com seus filhos.
A atenção desses adolescentes que deveriam está, principalmente, voltada para a formação escolar, no meu ponto de vista, acaba sendo direcionada para esses ambientes (acho que não é necessário eu citar os quais) de manifestação da libido. Ora, só que para adentrar esses ambientes, além de ter que possuir um capital básico de consumo é necessário também que esses adolescentes se travistam de modo que possam se sentir incluídos e objetos de desejo e admiração. Entramos aqui no universo, cada vez mais homonegeizante, do "fazer-se ver", ser notado etc.
Como os adolescentes masculinos que estou analisando aqui são os que são "desprovidos de numerários", não conseguem emprego por conta da escolaridade básica exigido pelas empresas e os pais não sustentam economicamente nem "visualmente" as baladas libidinosas de seus filhos, eles acabam direcionando suas pretensões para os chamados "patrocínios": termo que passou a significar o homossexual masculino. Assim, nessa relação onde os interesses, a priori, estão conscientemente determinados (porém às vezes camufladas) por ambas as partes, tanto à do homossexual (pelo menos no primeiro momento) quanto à do adolescente envolvido, se estabelece a "troca". Mas essa "troca" se faz em formas de "presentes", e como diz os provérbios da Cabília que Pierre Bourdieu recolheu, o "presente é um infortúnio porque, no final das contas, é preciso retribuí-lo. Ele contém uma ameaça: obriga à retribuição, e à retribuição com acrescimo; isto é, cria obrigações, é um modo de reter, criando devedores".
Assim temos aí uma forma bem brasileira de malandragem, no sentido de "forma de navegação social" que cria essa forma de relação criativa e conciliatória que nada mais é do que modos engenhosos de "tirar partido" de certas situações. Porém é válido ressaltar que não é raro que dessas relações ocorra, de fato, uma relação amorosa homossexual que, pelo fato do poder da discriminação em nossa sociedade, permanecem de forma velada. Termino por aqui.

