Persona

Persona
"Fiz de mim o que não soube E o que podia fazer de mim não o fiz. / O dominó que vesti era errado. / Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me. / Quando quis tirar a máscara, Estava pegada à cara. / Quando a tirei e me vi ao espelho, Já tinha envelhecido. / Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado. / Deitei fora a máscara e dormi no vestiário / Como um cão tolerado pela gerência Por ser inofensivo / E vou escrever esta história para provar que sou sublime." [Fernando Pessoa]

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Estranha ciranda


A noite é perigosa. Em diversas culturas é um período sombrio e certamente a grande geradora dos mitos, com os quais a humanidade explicava seus temores. Ruídos inexplicáveis, visões enevoadas acendiam a imaginação, fazendo surgirem vampiros, lobisomens, deuses iracundos e toda sorte de entidades feéricas.
Mas a noite de que trato nesse pequeno texto não é mais uma noite mítica, talvez até ainda seja para alguns, mas para mim foi bastante real.
Parecia uma noite normal que, à medida que a tarde se ia, ela se achegava, sorrateira. Eu caminhava por lugares antigos da cidade nos quais ainda hoje é possível se perceber, tanto simbólico como visivelmente, um continuum da opressão invisibilizada porque cotidiana. Uma multidão de condenados, de toda uma classe de indivíduos "precarizados" que se reproduz a gerações enquanto tal, desprovidos das pré-condições sociais, morais e culturais habitam esta região que à noite de torna bela e sombria. São o grupo de pessoas que o debate público trata como um conjunto de "indivíduos" carentes ou perigosos que Jessé de Souza denominou-os fantasticamente de "a ralé brasileira". Uma classe de excluída de todas as oportunidades materiais e simbólicas de reconhecimento social.
Como é de se imaginar esses habitantes, em sua grande maioria, fazem uso de substâncias tóxicas psicoativas que acaba influenciando no seu comportamento social. Ora, essas substâncias não são obtidas gratuitamente. Elas são compradas. E de onde vem a grana para comprá-las? Da noite. E, na grande maioria das vezes, dos furtos noturnos praticados cotidianamente do qual eu fui vítima numa dessas noites e que relatarei brevemente:
Fui cercado pel'aquela estranha ciranda de jovens indivíduos, uns seis ou sete, que me apalpavam em busca de pertences materiais que pudessem ser trocados por alguns minutos de ilusão... O engraçado disso tudo foi que a ânsia pelo momento de prazer ilusionista almejado pelos jovens; e a escassez de pertences com algum valor de troca desejado, em meu corpo, fez com que naquele momento esdrúxulo os indivíduos ainda estabelecessem uma discussão entre si sobre quem teria chegado primeiro e que teria o direito real de me extorquir. Foi um espetáculo aquilo tudo!
Assim, após um deles furtarem meu apareloho celular, pude voltar a caminhar por aquela noite estranha e, felizmente, ileso.
Enfim, temos então a hedionda dupla: conduta antijurídica e substâncias tóxicas psicoativas. Por favor, não me tenham como determinista! São apenas o que as evidência e experiência mostram...

5 comentários:

  1. Alanzito,

    Pense nestes jovens como revolucionários, pois, estão indo de encontro a um dos pontos chave desta sociedade, o sistema jurídico(kkk). É claro que parece loucura e eles também não estão pensando em destruir algo que os oprime, que os deixam na rua, sobrevivendo da piedade, furtos e migalhas destribuidas. Marx falou do fetiche que a mercadoria provoca e da criação de novas necessidades, não tão necessárias assim.Acho que o consumo deste tipo de droga serve como um momento de fuga de uma realidade tão vil...ou quebramos logo nosso modelo atual de vida ou fechamos os olhos e pensamos apenas nas nossas carreiras acadêminas e em estudos que muitas vezes não nos levam a nada...Muito bala o texto

    ( Dimas)

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  2. Sabe, Lan, eu entendo e me sensibilizo muito com o seu sentimento. Imagino o quão angustiante foi esse "espetáculo" do qual vc fez parte sem querer. Uma coisa sobre o que vc escreveu: será que o problema está no toxico mesmo? Claro que eu não quero fazer apologia a droga de nenhuma espécie, mas o que é mesmo que leva cidadãos (ou, para ser mais realista, seres sem cidadania alguma) a cometerem crimes? São as drogas? Talvez vc me responda que sim no caso do que houve com você e então eu me pergunto e te pergunto: e o que é que os leva a buscarem as drogas? Acho que essa é a pergunta-chave.

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  3. Sami, eu não disse que o problema está no tóxico, ou seja, que os crimes estejam necessariamente atribuídos ao uso dos tóxicos psicoativos. Tanto é que eu fiz questão de fazer uma abordagem geral inicial (no segundo parágrafo) justamente para que não me interpretassem da forma que você me interpretou. Apontei apenas que, diante de todo o contexto social em que vivem, o tóxico psicoativo agrava ainda mais o "comportamento social" desses indivíduos levando-os, na maioria dos casos, a práticas antijurídicas.

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  4. Sim, sim... e é impressionante o poder especialmente do crack, droga que tem se espalhado de forma assustadora nos últimos tempos principalmente porque é menos custosa.

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