
A Verdade partira em debandada. Onde terá se fixado? Quem conseguir alcançá-la avise-me... Coitada, já não se move...
Num diálogo entre Adriano e Epiteto surge a questão:
- “O que é que o homem não pode ver?” – perguntara Adriano.
E Epiteto responde – “O coração e o pensamento de outrem”.
Dessa forma adentramos no campo das percepções, quiçá afetivas, e no terreno instável e subjetivo da dissimulação. Questão que já foi, e talvez ainda seja, fruto de densas discussões.
Só a nível de exemplo temos o testemunho de Jean de Coras, Conselheiro do Tribunal de Toulouse, que num passado distante já dizia: “Não há nada mais detestável, entre os homens, do que fingir e dissimular, embora nosso século [e ele falava do XVI] seja tão desventurado que, em todas as posições, aquele que melhor souber refinar suas mentiras, simulações e hipocrisias muitas vezes é o mais reverenciado...”. Esse discurso me pareceu bastante atual...
É na campo da dissimulação que os seres humanos encenam seus sentimentos e pensamentos. E o uso dela muitas vezes ocorre de forma velada através de retóricas enfadonhas cuja falácia se sustenta na distinção cínica entre mentira e omissão.
Até onde minha vista alcança, foi Jean Baudrillard quem mais se preocupou em refletir sobre a questão da dissimulação. Ele nos diz que o simulacro é a “geração pelos modelos de um real sem origem nem realidade: hiper-real”. Assim, Baudrillard entendia nossa condição como a de uma ordem social na qual os simulacros e os sinais estão, de forma crescente, constituindo o mundo contemporâneo, de tal forma que qualquer distinção entre “real” e “irreal” torna-se impossível. Ou seja, somos todos (ou quase todos) atores de um grande espetáculo social.
Ainda seria possível a confiança? A fidelidade? Ela existiu algum dia...?
Hum... me perdi das horas... Tenho que dormir. Enfim... estou niilista esses dias...
Alan Passos.
Salvador, 05 de Maio de 2011

Gostei da sua reflexão Alan. Essas representações não são privilégios do nosso tempo ou do tempo de Coras. Jamais tiramos a máscara, nem para nós mesmos. As situações sociais as quais estamos submetidos no dia a dia exige que sejavos diversos (entenda diverso em um sentido polissémico), mas acredito que isto faz parte do próprio ser humano assim como o coração ou o cérebro (esses dois exemplos lhe dizem algo?). Não é que ao representarmos estejamos "simulando" algo - talvez omitindo outro lado nosso que no momento não seria conveniente mostrarmos (e ser inconveniente corresponde à diversas situações, portanto, peço cuidado ao leitor que sempre pensa no pior lado das coisas) - mas apenas nos adequando às diversas situações q passamos durante um dia.
ResponderExcluirDizia Lázaro, um antigo frequentador do jazz no MAM, após já estar em outro estágio de realidade alcançado apenas após o consumo de entorpecentes: "O mundo é um teatro e nós somos os atores". Não sei se ele ouviu de alguém ou se é da sua própria autoria mas a questão é que jamais saímos de cena. Somos sim atores, eternamente atores e os bastidores servem apenas para retocarmos a pintura ou modificá-la, nunca para tirá-la e deixar o figurino no camarim, porque atrás das vestes cênicas não há o homem puro, cru. Somos o que construimos através da nossa interpretação do mundo e do tom que dá a platéia - e a platéia ressoa, pede e espera atitudes dos atores que, por sua vez, correspondem de maneiras diversificadas à platéia - e, para o ator, será que o palco é onde está ele ou onde está a platéia? Pode ser os dois...
Segue...
Por outro lado, se seguíssemos o conselho de Nietzsche e partíssemos em uma viagem profunda às entranhas do nosso ser individual (os seres humanos podem ser seres individuais no sentido restrito do termo?) o que encontraríamos? Veríamos a nós mesmos sem o figurino e a maquiagem que este pede, ou veríamos o ator de cara lavada? Se acaso encontrássemos este, nos mostraríamos à platéia, assim, despidos? Lembre-se, para o ator e seus companheiros o palco é o seu mundo no momento e a platéia é algo fora da sua realidade, então, para o ator, a cena se constrói no mundo dele e no mundo para aqueles a quem ele está representando.
ResponderExcluirMas, sendo contraditória - até porque não estou querendo desenvolver ou afirmar uma tese e sempre é momento de se pôr à prova - talvez haja sim um ator de cara limpa por trás do personagem, mas há atores, talvez todos, que encorporam de tal forma o seu personagem que o seu personagem passa a ser ele prórpio. Acho que pouquíssimas pessoas já conseguiram ver a si próprias de rosto lavado. Na verdade, este estágio deve ser duríssimo e muito difícil de ser alcançável, se é que ele possa ser alcançável.
Acho que atrás de todas as máscaras que utilizamos nas situações diversas, há aquela que elegemos como a mais sincera, verdadeira, ou seja, aquela que somos nós, como nós nos percebemos intimamente (acho que meu discurso não está sendo nem contraditório, acho que estou pensando e escrevendo ao mesmo tempo por isso ele está longo e sem uma seleção de argumentos para a defesa de uma posição. Incorporei ao meu figurino as vestes acadêmicas, elas já fazem parte de mim e de vc tb.). Mesmo esta, ela tb é mutável no tempo. Estamos nos acrescentados de valores externos, resignificados pelos nossos anteriores e ancestrais, modificando gostos etc; por isso, acho que não há um ser puro, anterior aos personagens. Já nascemos em um palco e morreremos nele dando continuidade ao espetáculo. Na viagem profunda proposta por Nietzsche, encontraremos o ator por trás do personagem, mas não o ator de cara lavada e sim o ator com a máscara que no momento escolheu para si representar.
Continua...
O que tudo isso significa? Significa que nós historiadores e seres humanos (como em outro texto que eu li em seu blog) estamos sempre em busca do inalcansável. Tb gostaria de ver o coração e a alma de outras pessoas, gostaria muiiiiito, mas as pessoas não se mostram como são (com aquela máscara por baixo de todas as outras que escolheu para se representar) porque vivemos em um mundo de incertezas. Não sabemos se podemos ser tão sinceros a este ponto, por mais que queiramos e, acho que tb as incertezas, esses tipos de incertezas, sempre existiram, em todos os tempos (palavras comprometedoras para serem ditas por uma historiadora não é? Mas não estou nem ai, quis dizer e disse e possa ser que daqui a pouco eu reconsidere esse dizer). Como se faz para confiar no outro se alcançar o coração e a alma do outro é a única coisa impossível no mundo (segundo os seus personagens e, aproveitando, pq um se chama epíteto?)?Será q existe alguém que realmente nos mostra a sua máscara escolhida? Sim, acho que sim, mas poucas são essas pessoas, no mais, tentamos decifrar o outro a partir do que ele nos deixa transparecer (e deixa tão pouco... Colocações de historiadores, já internalizamos). Poderia ficar aqui escrevendo muitas e muitas páginas sobre isso mas não quero mais escrever.
ResponderExcluirMudando um pouco de assunto (mas nem tanto), o texto se casa à imagem da lente de uma câmera tornando a imagem repleta de significações, não poderia ter sido melhor a escolha.