Persona

Persona
"Fiz de mim o que não soube E o que podia fazer de mim não o fiz. / O dominó que vesti era errado. / Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me. / Quando quis tirar a máscara, Estava pegada à cara. / Quando a tirei e me vi ao espelho, Já tinha envelhecido. / Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado. / Deitei fora a máscara e dormi no vestiário / Como um cão tolerado pela gerência Por ser inofensivo / E vou escrever esta história para provar que sou sublime." [Fernando Pessoa]

quinta-feira, 7 de abril de 2011

O espetáculo comovente: Pierre Rivière e Wellington Menezes de Oliveira


François Dosse refletindo sobre a narrativa historiográfica diz que “o discurso histórico é fortemente marcado pela importância da retórica argumentativa”. A partir desse fragmento tive uma idéia...

O momento não me parece mais oportuno... e então fui tentado a redigir essa breve comparação entre dois casos distantes espacial e temporalmente, mas que trazem em si preciosas semelhanças.

O Povo brasileiro está comovido. A mídia progressivamente se especializa no discurso apelativo que sensibiliza a nação. Somos todos afetados.

Aos 3 dias do mês de Junho de 1835, numa pequena comuna francesa chamada Aunay, um terrível assassinato alarma a pequena e estática localidade. Pierre Rivière degola sua mãe (Victorie Brion) com mais ou menos quarenta anos e que estava grávida, seu irmão (Jules Rivière) de sete a oito anos e sua irmã (Victoire Rivière).

176 anos após o caso de Rivière, aos 5 dias do mês de Abril de 2011, na então Cidade Maravilhosa do Brasil (RJ), uma personagem chamada Wellington Menezes de Oliveira portando dois revólveres e munição adentra um Colégio público e atira nos estudantes que assistiam aulas, assassinando mais de 12 pessoas.

Coincidentemente, assim como Rivière, Wellington era um sujeito pacato, quieto, de poucas palavras. Porém, ao contrário de Wellington que suicidou-se após o atentado, Rivière saiu em fuga, mas foi capturado mais ou menos um mês após seu crime.

Outros fatos também coincidem entre as duas narrativas, a saber: a premeditação e um relato feito pelas personagens agentes do crime no qual consta vestígios narrativos de ideologia religiosa. Rivière, após ser preso e interrogado, escreve um memorial relatando sobre as razões que o motivara ao crime, enquanto Wellington, talvez já prevendo a possibilidade do suicídio, deixa uma carta relatando an passant as possíveis motivações que o levara a praticar o delito.

No tempo de Rivière o principal meio de publicidade era o jornal impresso (para os letrados) e o chamado “boca-a-boca”, ou seja, o fuxico (para a ralé). Já no período de Wellington, os meios de comunicação modernos e espetacularmente rápidos, sobretudo a TV e a Internet, veicularam as possíveis especulações racionais desejosas de explicações para o ocorrido.

Assim, em ambos os casos, todos falam ou parecem falar da mesma coisa: o acontecimento do assassinato. Porém observa-se também uma batalha discursiva entre discursos de origem, forma, organização, função e especialidades diversas (médicos, judiciários, psicológicos, criminológicos, publicitários) racionalizantes e redutoras ávidas por explicações necessárias. É nessas formas de interpretações diversas entre os variados campos epistemológicos discursivos que Foucalt percebe as relações de poder e de saber.

Então, assim como Foucalt não se permitiu interpretar o caso de Rivière, pois que nisso estaria implícito uma tomada de posição de um desses discursos, não interpretarei o ato de Wellington que me custaria também uma tomada de posição impondo uma relação de força com efeito redutor da trama.

Vejamos os próximos episódios...

Salvador, 7 de Abril de 2011.

Alan Passos.

4 comentários:

  1. Sim, nos preparemos pois mais e mais teorias canhestras e exdrúxulas virão acerca do ''perfil insano, psicótico'' do atirador. Pra adiantar uma das proezas, já foi proferido por um desses liberais especialistas em explicações a William Bonner e jornalistas e mídias afins: ''o sujeito era muçulmano... veja a intolerância na qual liquidou as vítimas sem fé!'' Ou, ''era um misógino (ou algo assim), haja vista o número maior de meninas assassinadas em relação aos meninos'' (se não me engano, dois somente eram meninos das vítimas). Vamos preparar os ouvidos para as iminentes asneiras vociferadas por Varelas e Datenas de plantão: ainda vem muita merda por aí. Infelizmente esse acontecimento tétrico ainda será explorado espetacularmente até a última gota de novelização.

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  2. As emissoras usam as tragédias para montar seus espetáculos cinematográficos, repletos de explicações e comentários que fogem das verdadeiras causas. Esse sensacionalismo é repugnante!

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  3. Na verdade, não está errado para nenhum de nós procurar respostas para casos tão trágicos como esse,entretanto, o que muitas vezes fazemos é culpabilizar o indivíduo, como se ele pudesse agir dissociado da sociedade. Ainda que seus atos sejam estejam completamente fora da moral que "seguimos", existe uma relação do homem com seu meio em qualquer ação que ele pratica. Perdão se pareço estar relativizando demais as coisas, é que não me parece justo com as pessoas que sofreram a perda de suas crianças, dizer que tudo nessa história morreu com ele, sabendo que isso pode acontecer mais vezes se não nos mobilizarmos para compreender melhor os processos sociais que cercam nossas crianças e jovens. Dessa maneira para terminar eu digo que, se vamos falar sobre o caso que seja ao menos algo produtivo (falo isso principalmente por parte dos profissionais da área psi)ou então sejamos como Foucalt, calados mostramos muito mais inteligência.

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  4. Bom eh bem verdade que a mídia tem o "q" de sensacionalista, mas jornalismo é para isso para te dar noticia e é claro q eles vão manipular a situação pq eles vivem disso, e isso pq tbm a população responde a esses apêlos de maneira categórica. A população chega a ser hipócrita, pq tragédias dessas ocorrem a toda hora, mas elas só enchergam as "visibilizadas" dessa maneira. Ocorre que meu professor de Sociologia Jurídica Léo Pauperio disse o seguinte: "O ocorrido hj não foi um ato de terrorismo. Não há motivação política, não se atentou contra a ordem estatal, nada se reivindicou, não se ergueu qualquer bandeira ideológica. A população precisa se informar mais sobre a realidade das patologias mentais. Estima-se q 3 a 4% das pessoas são psicopatas." Ou seja, pessoas como essas convivem conosco e podem ser qualquer pessoa. O Estado precisa repassar informação, entendimento, prevenção, auxilio, assistência, cuidado, sem preconceito. Pq sociedades que não cuidam dos seus, onde armas circulam livremente, pagam de alguma forma o preço.

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