
O sentido (se há algum) da existência humana é um tema que desde a Antiguidade tem feito os Homens refletirem sobre a percepção da existência (ou quiçá da passagem) por esse mundo, que desde a natalidade, já se é sabido que é passageira. Diversos debates teológicos e filosóficos tem surgido em torno dessa questão que cotidianamente nos vem à tona através dos diversos canais comunicativos da sociedade, talvez em grande medida metaforizada, e que sempre nos receamos em nos pronuciar. É sobre este tema que me proponho a arriscar um breve ensaio.
A ampulheta do tempo nos move em sentido contrário. A contagem do tempo se faz de forma regressiva a partir de nossa aparição materializada. Temos a ilusão de que quanto mais o tempo passa, mais vivemos. Ou talvez poderíamos estar vivendo, de fato. Mas o que se percebe é que estamos apenas sobrevivendo. Contudo a lógica do tempo é outra... O avançar da temporalidade (que nossa racionalidade não se cansa de codificá-la, de modo que hoje já há até milésimos de segundos!) nos conduz a uma série de experiências que, até certo ponto, são mais ou menos controladas por nossas escolhas.
Cada sociedade produz uma lógica existencial. Não vou me deter em análises historicistas sobre as diversas lógicas existencias ao longo da História porque foge ao objetivo deste ensaio. Me deterei apenas na análise de nossa sociedade contemporânea.
Após alguns episódios que me ocorreram essa semana comecei a refletir qual seria a lógica que rege nossas existências atualmente. E comecei a perceber uma lógica perversa na qual estamos todos habituados, de tal forma, que possivelmente agimos sem perceber. É surpreendente como nosso maior desejo, aquilo que move toda a nossa existência está direcionado para a realização profissional a tão ponto de, às vezes, nos desgarrarmos de quase todos os nossos laços afetivos, de perdermos nossa sensibilidade, para vivermos em prol de um "bom emprego" e da almejada estabilidade. Não desejamos mais viver com intensidade aproveitando toda nossa existência no breve período em que estaremos vivos. Muito pelo contrário: todos almejam se travestir de uma fantasia que lhe sirva de distintivo social e se trancafiar em um escritório de merda onde até o ar é artificial... E no final: um contentamento (ilusório) através do capital pago pela venda de nossa força de trabalho, pela nossa medíocre existência, pelo roubo de nossa possibilidade de vida.
E me pergunto: e o que estamos fazendo de nossas vidas? Que rastros de nossas existências estamos deixando? Algum? Um exército de formigas a produzir, produzir, produzir...em busca de uma ostentação de vida frívola!!!
Até as tão almejadas universidades, com sua intelligentzia, onde deveria ser um local de constestação das ideologias violentadoras da humanidade está se transformando num local de acomodação. Um mero local onde se espetaculariza o rito de passagem de um lugar social às vezes desprivilegiado para se tornar mais um legitimador da ordem vigente.
Vivemos em um arcabouço temporal marcado pela vitória progressiva do tempo monocrômico, determinado e restritivo. O nosso tempo de lazer, de diversão, de convivência social está consagrado à recriação da força de trabalho. Após uma extensa semana cronometricamente determinada pelas famosas agendas, (já que não somos como Funes, el memorioso) cada vez mais "necessárias" porque nossa mente não consegue mais dar conta da quantidade de tarefas que devemos fazer por dia, daí a necessidade de previsão que limita nossa liberdade, paramos ao domingo apenas porque estamos esmagado, sem mais condições nenhuma de produzir nem nos divertir. Então nos trancafiamos em casa, ou melhor, nos quartos solitários densamente povoado pela presença de amigos online...
"O que foi feito amigo de tudo que a gente sonhou? O que foi feito da vida? O que foi feito do amor?" Pensemos nisso. Não deixemos que o cotidiano nos embote. Precisamos nos dar prazer...
Salvador, 26 de Setembro de 2010.
Alan Passos.

esse texto me chamou pra realidade!! há muito tempo venho me questionando sobre as minhas escolhas, a minha rotina, o que perco agora na pretenção de ganhar mais tarde e se de fato serão realmente ganhos... o fato é que, hoje é um domingo, e, exatamente como você disse eu me sinto "esmagada"! Obrigada pelo texto...!
ResponderExcluirBravo, bravo!!! Belo texto Alan, tenho que concordar com você sobre todos os pontos levantados...A lógica vil de um tempo dividido, a solidão inerente a este modelo de vida e a cruel busca pelo "melhor cargo", os "melhores espaços" tornam nossas breves vidas cada vez mas fluidas!
ResponderExcluirExcelente texto, Lan! Eu mesma me vejo exatamente assim vez ou outra, esmagada pela rotina, pelos projetos, pela vida corrida e cada vez mais rodeada de amigos cada vez mais virtuais. O curioso é que eu escolhi me pôr a serviço, escolhi esta minha vida assim como é, esmagada, mas o que me acalenta é saber que este é apenas um degrau para uma vida um pouco mais vivida, pelo menos é o que eu espero, afinal, estabilidade financeira nos proporciona um pouco de bem estar, comida na barriga, abrigo contra a chuva... então eu corro demais...
ResponderExcluirAlan me senti contemplada em várias passagens. O tempo que sufoca ou nós que insistimos em nos sufocar. Sim, ultimamente mais que nunca me sinto assim, presa, angustiada e vendo a vida passar. Essa busca inveterada e cega pelo êxito profissional em detrimento da felicidade. Estou afetada, não sei o que dizer, me sinto uma formiguinha e me sinto a carregar pesos maiores que o meu corpo. Jogo para ar? Remo contra maré e se morro na praia? É isso que queremos? Não, meu caro, não é. Vida social em um mundo regido pelo capital, é cruel, é comum, chega a ser banal. Mas somos o que temos, somos as contas que pagamos, os impostos, a tais "obrigações" e "responsabilidades" que batem na porta desde o simples gesto de se alimentar, vestir e até se divertir para além dos contatos cibernéticos. Dura néh essa vida? Sabe, pretendo jogar na loteria mais vezes para não perder a esperança, para continuar sonhando que um dia o tempo será meu aliado e que um dia serei livre para o ócio, a contemplação e a formação "desinteressada". Viverei de bel prazer.
ResponderExcluirAllan querido,como nós compartilhamos uma parte de nossa rotina me identifiquei com exatamente tudo que está inserido em seu texto, aliás interessante do ínicio ao fim.
ResponderExcluirEngraçado é que eu também tenho pensando sobre esse problema a algum tempo e está tudo representado na su postagem.
Gostei muito! Continue ousando.
inevitável ler seu texto e não lembrar dessa música:
ResponderExcluir"Acorda cedo/ Acorda pra ver/ quanto tempo perdeu/ com tanta areia na vista.
O corpo decompõe/ o corpo decompõe aos poucos
/ e não há nada que devolva/ a sensação de ainda/termos tanto a viver,
termos tanto a ver/ com correntes nas pernas
e a boca em xilocaína
não deixando saber/ não deixando sentir o gosto/das sobremesas pelas quais
trocamos nossas vidas.
[...]
Trabalhar e prosperar/estudar e alcançar/o nirvana patriarcal.
Aprender a processar/e a parcelar as dívidas/
Kafka, morfina e Anthrax."
"Correção" - Dance of Days
Ai Alan, nunca te vi tão marxista! (risos) Mas é essa a lógica do capital e do mundo capitalizado de hoje, uma lógica absurdamente invertida: trabalhar para ter em detrimento do ser...
ResponderExcluirAinda conseguimos achar normal a transitoriedade das coisas e forma como elas se configuram.
Precisamos acordar do pesadelo que nos transforma em máquinas, precisamos ser tocados com bons pensamentos e bons sentimentos.
Precisamos de alguém com Ogun ao seu lado, alguém como o impagável Alan para nos sacudir e dizer: acorda, o sol está raiando!
Pedro Vianah